Pedro Pittella subiu ao palco da 4ª edição do Ideia Boa Para Todos, realizada em 11 de setembro de 2026 na Amcham, em São Paulo, com uma foto de família dos anos 1960 no telão. Ele é o menino cabeludo no colo da irmã mais velha. A partir dessa imagem, construiu o argumento mais direto do encontro.
“Naquele momento, década de 1960, a expectativa de vida no Brasil era de 53 anos. Eu sou testemunha ocular, eu vi o brasileiro ganhar 50% mais de vida. Ao longo da minha vida houve essa transformação. Só que a gente não prestou atenção nisso.”
Dali, foi direto ao ponto para quem trabalha com pessoas:
“Quando eu falo de etarismo, estou falando de uma coisa que já aconteceu. Para os colegas de RH: se você não prestou atenção, você perdeu o bonde da história. Não vai acontecer até 2050, já aconteceu.”
Pittella é Diretor de Pessoas e Cultura da Sanofi Brasil e líder global do pilar de diversidade etária da companhia. O escritório da Sanofi em São Paulo tem a Certificação Guiaderodas há três anos e a mantém em evolução contínua. Ele acaba de publicar, com outros autores, o livro O Futuro do Trabalho, no qual assina o capítulo sobre etarismo no mercado de trabalho.
A conta demográfica em duas linhas
De um lado, as pessoas vivem mais. Do outro, nascem menos: a média brasileira de filhos por mulher caiu de 6,3 para 1,7.
“Se a gente saiu de 6,3 para 1,7, não repõe a população. No último censo falaram que sumiram 20 milhões de brasileiros, porque esperavam 220 milhões. Não desapareceram, não nasceram.”
O resultado é simples de enunciar e difícil de ignorar: vive-se mais e nasce-se menos. A população envelhece — e com ela, o quadro de funcionários de todas as empresas representadas naquela sala. Por isso, a primeira pergunta que Pittella fez à plateia foi propositalmente simples:
“Você conhece a distribuição geracional, de idade, da sua empresa? Você já teve a curiosidade de pesquisar e ver quais são as implicações disso?”
O que é etarismo, afinal
Para dar consistência ao debate, Pittella recorre à definição da Organização Mundial da Saúde, que tem a vantagem de ser operacional:
“Etarismo é como você pensa, como você sente e o que você faz com relação à idade.”
Onde longevidade encontra acessibilidade
Ele trouxe exemplos concretos de como essa mudança já aparece na operação de grandes empresas. No Japão, uma rede de lojas de conveniência adaptou suas unidades para atender uma população cada vez mais longeva. Na Alemanha, uma montadora ganhou 7% de produtividade em uma linha de produção depois de adaptar o piso.
“Quando você começa a olhar a adaptação e a acessibilidade para uma população longeva, você consegue ter resultado concreto também.”
Para Pittella, o raciocínio inverte a lógica usual do design inclusivo:
“Não é pensar para os 60 mais, é pensar com os 60 mais. Se uma ideia é boa para todos, é uma boa ideia para os 60 mais também.”
“Quando você inova, tem o risco de dar certo e o risco de dar errado. Mas você tem que medir.”
Por onde começar
Pittella encerrou com um convite sem exigir motivo nobre: faça por justiça social, faça por talento, faça porque o mercado longevo cresce, faça porque a reputação está em jogo.
“Não importa por que você começa a fazer. O importante é você começar a fazer.”
E a frase que dá título a este texto:
“Todos nós somos idosos em treinamento. Todo mundo, um dia, se der certo, vai chegar lá.”
Pensar no futuro do trabalho é pensar nas pessoas que vão viver, trabalhar e utilizar os espaços que estamos projetando hoje.