O futuro da acessibilidade também se decide na rua: os três horizontes da mobilidade, por Saulo Passos

Tela do evento apresentando Saulo Passos, da Uber, e o tema "Acessibilidade e o futuro da mobilidade nas cidades"

Quando olhamos para a mobilidade pela perspectiva da acessibilidade, percebemos que deslocar pessoas é muito mais do que levá-las de um ponto a outro: é ampliar possibilidades, autonomia e participação.

Foi essa a visão trazida por Saulo Passos, vice-presidente de Comunicação da Uber para a América Latina, ao falar sobre como acessibilidade e mobilidade se conectam — e os desafios que essa relação traz para o futuro das cidades, no tema “Acessibilidade e o Futuro da Mobilidade nas Cidades”: como a mobilidade urbana e a acessibilidade se tornam inseparáveis, o papel das empresas nessa transformação, e como as cidades precisarão se redesenhar para incluir todas as pessoas nos próximos 10 anos.

A discussão sobre espaços acessíveis quase sempre começa na porta do edifício. Saulo puxou a conversa para antes disso: o trajeto que leva a pessoa até lá — momento em que muitas jornadas já se interrompem. Se o futuro da acessibilidade é medido por quem consegue chegar, ele começa muito antes da porta: começa na rua.

A Uber teve o escritório de São Paulo certificado pelo Guiaderodas em 2026 e já está com uma nova unidade em processo de certificação.

A jornada não começa no carro

Antes de falar de futuro, Saulo lembrou o que já mudou no presente — e que boa parte da plateia usa sem perceber:

“A gente introduziu uma série de recursos para facilitar com que essa jornada seja completa para a maior quantidade possível de pessoas. Pessoas com algum tipo de comprometimento motor ou visual recebem alertas, você consegue mudar o tamanho da fonte, ter alertas sonoros. Pessoas cegas também utilizam a plataforma.”

E resumiu a régua que aplica a esses recursos: um trajeto de ponto A a ponto B só faz sentido se todas as pessoas conseguirem participar dele.

Os três futuros da mobilidade — e o que cada um significa para a acessibilidade

Elétrico é o mais presente. Vale para carros, mas também para bicicletas, motocicletas e ônibus. O gargalo apontado por Saulo é econômico, não tecnológico: motoristas parceiros dizem à Uber, todos os dias, que adorariam ter um carro elétrico — mas que hoje ele não cabe no bolso.

Compartilhado vem com um número que reorganiza a conversa sobre cidade: 95% do tempo, o carro fica parado. Multiplicado pela frota de uma metrópole, isso é toda uma área que hoje é garagem ou estacionamento e poderia ser outra coisa.

A mudança também é cultural, e Saulo mediu isso dentro de casa: tirou a carteira de motorista no dia seguinte ao próprio aniversário de 18 anos. O filho, hoje com 17, não tem o menor interesse em fazer o mesmo. Menos carros parados e mais deslocamento compartilhado também significam mais opções de rota para quem hoje depende de um único modal acessível para se mover pela cidade.

Autônomo é o mais distante. A frota custa caro, sem contar com os radares e o desafio de mapear uma cidade em que uma rua muda de mão e uma faixa de pedestres desaparece de um dia para o outro.

A frase que encerra

“Mobilidade, a gente enxerga como liberdade. Liberdade de ir para onde você quiser, de maneira verdadeira, sendo escutado, sendo entendido. E principalmente com uma tecnologia em que não somos nós que temos que nos adaptar à tecnologia: essa tecnologia tem que se adaptar à realidade de cada um de nós.”

É a mesma inversão que sustenta a Certificação Guiaderodas, agora aplicada ao transporte: não é a pessoa que se ajusta ao que foi construído — é o que se constrói que precisa funcionar para quem chega. Elétrico, compartilhado ou autônomo, nenhum desses futuros é, por si só, mais acessível — cada um só cumpre essa promessa se for desenhado, desde o início, para quem hoje ainda não consegue sair de casa.

Saulo Passos participou da 4ª edição do Ideia Boa Para Todos, realizada em 11 de setembro de 2026, na Amcham, em São Paulo.

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