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Surdo e Deficiente Auditivo é a mesma coisa? Entenda a diferença!

Surdo e Deficiente Auditivo é a mesma coisa? Entenda a diferença!

Muitas vezes os termos “surdo” e “deficiente auditivo” são tratados como sinônimos

Quando uma grande amiga  me contou que era deficiente auditiva, meu primeiro impulso foi achar que fosse algum tipo de piada que eu não tinha entendido muito bem. Afinal, não só estávamos tagarelando há pelo duas horas como também éramos companhia constante uma da outra naqueles shows de bandas cover que eram febre em todo centro de São Paulo lá pelos anos 2010. E eu fiquei pensando, surdo e deficiente auditivo é a mesma coisa?

Meu olhar de incredulidade foi suficiente para fazê-la mostrar seu AASI (mais conhecido como aparelho auditivo) e explicar sobre as diferenças entre surdez e deficiência auditiva, transformando uma noite totalmente despretensiosa em um dos momentos mais informativos que já tive. 

Termos

Muitas vezes os termos “surdo” e “deficiente auditivo” são tratados como sinônimos, quando na verdade existe uma gama ampla pessoas que, apesar de terem em comum a perda parcial ou total da capacidade de ouvir, levam vidas completamente diferentes: há quem consiga escutar perfeitamente graças ao uso de aparelhos menores que um AirPod; quem se comunique apenas através de uma Língua de Sinais; quem  já nasça com problemas auditivos e quem vá perdendo a capacidade de ouvir ao longo da vida.

Consequentemente, pode ser complicado entender os critérios usados para diferenciar surdez de deficiência auditiva – e você provavelmente vai escutar respostas diversas dependendo de com quem conversar e por qual perspectiva decidir olhar. Para explicar melhor as diferenças entre esses dois termos, começaremos falando sobre as nomenclaturas desenvolvidas pela Organização Mundial de Saúde e pela Lei Nacional de Inclusão: 

Qual a diferença entre surdo e deficiente auditivo?

surdo e deficiente auditivo é a mesma coisa

De acordo com os critérios estabelecidos pela OMS, deficiência auditiva equivale à redução na capacidade de ouvir sons em uma ou ambos os ouvidos. Assim, pessoas com perda auditiva que varia de leve a severa se enquadram no grupo com deficiência auditiva. Normalmente quem se inclui nesse espectro se comunica pela linguagem oral e faz uso de aparelhos auditivos ou implantes cocleares – dispositivos eletrônicos parcialmente implantados capazes de transformar sons em estímulos elétricos enviados diretamente ao nervo auditivo. A surdez, por sua vez, é definida como a ausência ou perda total da capacidade de ouvir em uma ou ambos os ouvidos.

Já de acordo com a Lei 13.146/2015, mais conhecida como Lei Brasileira de Inclusão, desenvolvida com base na Convenção da ONU sobre os Direitos das pessoas com Deficiência, o correto é usar pessoa com deficiência auditiva, seja ela oralizada (que se comunica através da língua falada) ou sinalizada (que se comunica por uma Língua de Sinais). Segundo o próprio Ministério da Saúde (2017), surdez é a impossibilidade ou a dificuldade de ouvir, ou seja, sob uma perspectiva jurídica não existe nada, no Brasil, que indique diferença entre esses dois termos. 

A comunidade Surda

A comunidade Surda

Poucas coisas na vida podem ser colocadas em caixinhas, e a questão da surdez não é diferente: existe toda uma perspectiva cultural que a discerne (e muito!) das descrições mencionadas acima. Segundo ela, o que difere o Surdo do deficiente auditivo é sua participação na comunidade e na cultura Surda. Sob esse ponto de vista, se identificar como Surdo é suficiente para ser definido dessa forma, independente de seu nível de perda auditiva. Assim, quem não se identifica como Surdo passa a ser considerado deficiente auditivo.  Em um artigo para a edição 74 do Guia do Implante Coclear, o professor de Português/LIBRAS do Instituto Federal de São Paulo, Luis Mateus da Silva Souza, explica um pouco sobre a terminologia usada pela comunidade Surda, e o que a distingue de uma visão médica:

‘Surdo’ com letra maiúscula é usado para marcar que esse sujeito é diferente, e não deficiente, que faz parte de uma comunidade com uma língua e cultura própria, ou seja, é minoria linguística. Já a palavra ‘surdo’ com letra minúscula normalmente apresenta a condição patológica, a ausência de algo, o déficit auditivo, assim como o termo deficiência. Existe um embate entre a visão clínica-patológica e a visão socioantropológica da Surdez. A visão clínica pensa em ‘consertar’ o surdo, resolver o problema auditivo. Já a visão socioantropológica compreende que não é a Surdez que prejudica o Surdo, mas sim a sociedade excludente, que não oferece as condições necessárias para que o indivíduo se desenvolva. O Surdo precisa ser respeitado em suas diferenças e necessidades, pois tem o direito de ser Surdo.

Dentro da comunidade Surda, a comunicação é feita principalmente pelas Línguas de Sinais (LS), que possuem estruturas gramaticais como as de qualquer outro idioma, distintas apenas por sua modalidade visual-espacial – ou seja, o que chamamos de “palavra” nas línguas oral-auditivas é chamado de “sinal” nas Línguas de Sinais.  

Ao contrário do que muita gente pensa, as Línguas de Sinais não são universais: cada país tem a sua própria LS e, da mesma forma que nas línguas oral-auditivas, essas línguas possuem uma série de gírias, expressões e regionalismos! No Brasil usamos a Língua Brasileira de Sinais, mais popularmente conhecida como LIBRAS.

Quais terminologias posso usar ao interagir com uma pessoa Surda ou deficiente auditiva?

Em um universo tão amplo e com tantas definições possíveis, não existe uma única maneira correta de  se referir a uma pessoa com perda auditiva. Normalmente quem é integrado à comunidade Surda prefere ser chamado assim, e deixará isso claro durante uma conversa, por exemplo. Há, por outro lado, pessoas como a minha amiga lá do início do texto, que encaram o uso do aparelho auditivo como nada muito diferente do uso de óculos para corrigir problemas de visão, e que se definem como deficientes auditivas. O segredo para não errar em caso de dúvida é perguntar à própria pessoa por qual termo ela prefere ser tratada.

Quer saber mais? Veja Tecnologias Assistivas para Surdos.


Renata Schmidt

Renata Schmidt 
Relações Públicas e jornalista. Acredita que todo mundo tem uma história que vale a pena ser contada.

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